sobre silêncios e outras coisas...
protesto
no meio de tantos protestos
o coração
o peito nu
o corpo nu
no meio de tantos protestos
o corpo pede por uma rendição
o corpo pede pra perder a luta
que emana da vontade de outro corpo
o corpo quer perder a guerra
quer paz
e quer ter razão
o corpo não quer ser feliz com a mentira
doce sussurro no pé do ouvido
condição da batalha
já quase vencida
o corpo só quer
gozar de pé no quarto na cama
rés do chão
o corpo que lançou um grito no meio da passeata
galgou o espaço
se fez cansaço
se transformou em suspiro
ansiou o gemido
no meio da noite
o corpo acolheu no peito a cabeça amada
fez do cobertor sua bandeira
e fez amor.
a noite me pesa sobre os olhos
a noite se encerra sobre meu coração
a noite não silencia o sibilar
da serpente traiçoeira
a noite traz o veneno
a noite aguça meus sentidos vitais
quando eles deveriam dormir
a noite me constrange
e me empurra para o canto da parede
a noite faz raiar meus medos
a noite sou eu
a água do rio me tornou doce
firme nas ideias
pés – raízes plantadas no chão
a água me empurra e me dissolve
assim como a água
sou toda líquida
e trago em mim cardumes
de pensamentos inacessíveis
mas um terço do que sou
tem o sabor do sal
e as profundezas
do que não vejo
nem compreendo
pertencem a uma parte de mim
assim
abissal
resolvi sair detrás dos passarinhos
e das bonecas que sangram
mas não deixei de assoviar a melodia triste
nem deixei de sangrar
aqui por dentro
resolvi mostrar estes olhos
e um pouco do que deixei pra trás
resolvi não contar mais
histórias de ninar
histórias do acaso cego
em que me deixei encontrar
agora aqui está minha face
tripudiada por vontade própria
mas não com pouco sofrer
aqui está minha face
olhos cegos ventania
um passo em falso
no abismo do querer
monstro
sua palavra me feriu
e sua não-palavra também
ver tua felicidade
fingir que tudo continua
essa tua ignorância de mim
e atitudes tão banais
cada máscara
ressoava vertigem de algo mais
não te soube compreender
deformei minha face
fazendo perguntas sem respostas
galgando muros intransponíveis
até virar o monstro
hipocrisia da falsa expiação
o sofrimento eterno
para o gelo em que se transformou
a lava do vulcão
café*
meu café é regado a palavras
nem sempre doces
nem sempre quentes e fortes
mas vivas e sedentas
meu café te convida para dançar
no palco com luzes apagadas
da minha consciência
meu café tira o sono
e turva a placidez da memória
desfecho do roteiro noturno
silenciosa trilha sonora
que vaga a ermo
pela poesia deserta
por esta viela
veia que singra e sangra
aberta
*para P.
mal-criada
quero enfeitar teus cabelos com minhas mãos
e sacudir tua sanidade
com algumas palavras ao pé do ouvido
quero arranhar tuas costas
com força
só pelo prazer de ouvir teu gemido
quero te fazer querer
quero te fazer não pensar
quero usar todas as máscaras
pra enfeitar as partes de mim
que você não conhece
e escrever poemas no teu dorso
pensando bem
só quero isso
e em troca fica com o meu ar blasè
pra tua cara de bom moço
raro
é triste não ter histórias pra contar
e ter vivido de tudo um quase
ultimamente
venho me sentindo meio estranha
mas não gosto
não quero
e tomo banhos de chuva
continuamente
paro no meio de tantos sons
cores pessoas e sorrisos
sem deleite
a verdade oscila
e eu imóvel só quero fechar os olhos
pro resto de luz que sacaneia
meu sono
tão raro
em algum lugar aqui dentro
há uma menina que não cresceu
e vive doendo
em algum lugar aqui dentro
sobrevive escondida
atrás de tons pasteis e caramelo
esperando pela despedida
de tudo o que poderia ter sido
e não foi
em algum lugar aqui dentro
há confetes e serpentinas
há um baile sem máscaras
há a promessa da fantasia
há a oculta lágrima de cor carmim
em algum lugar aqui dentro
ainda há a promessa da bailarina
que vivia na ponta dos dedos
e agora na ponta do lápis
escreve a esmo
tentando desvendar o segredo
do mundo que inventou
para si
encruzilhada
te fiz poemas
sem pressa de dizer adeus
mas sabendo que esse dia iria chegar
derramei lágrimas antes da chuva
lavar a tristeza da varanda
coloquei uma roupa nova
me fiz bonita
e saí sem rumo
até que a encruzilhada
exigiu uma despedida
olhei o caminho
tortuosa estrada
entre as montanhas
decidi voltar por onde vinha
sem pressa
sem passos largos
sem a pose altiva e decidida
busquei o caminho de casa
o ponto de início
de todas as partidas
não quero apagar todas as nossas conversas
nem riscar do calendário
o dia que não te encontrei
não quero saber de ti
nem o bem que você me fez
não quero lembrar do teu cheiro ou gosto
que não senti
não quero lembrar
de como não abandonei
meu corpo sobre o teu corpo
languidamente
não quero saber a insegurança
dos teus sonhos fugidios
nem sobreviver
na masmorra de um consolo
intragável
mas vejo e sinto palpável
as portas da tua fuga se abrindo
iminentes
permaneço atenta
e tento gravar no papel a história
daquilo que por medo
não deixamos fazer parte
da memória
de repente
minhas palavras te cansaram
aquela lenta tortura chinesa
me vertia prazer
pela retina
de repente
percebi o desprazer
que te movia
inadvertidamente para longe
de repente
me vi voltando os passos dados
recolhendo cacos
rasgando papeis
sorvendo bebidas imaginarias
em garrafas vazias
de repente vi que
não era eu ou você
o que se perdia na madrugada
percebi que minha presença
fazia parte da tua jornada
percebi minha sina e tua sorte
o tempo que toma conta
do início da vida até a morte
percebi meu devaneio
e teu pranto
encostei meus lábios no seu ouvido
sim, eu canto
sem destinatário
não soube dizer pra ti
as coisas no dia que aconteceram
não soube mais de ti do que de mim
e esse foi o grande erro
tuas histórias se confundiram
com as lágrimas que derramei
a tempo de ver o tempo passar
conselhos na frente do espelho
e outros tantos motivos de não se falar
os espaços necessários entre a gente
ao contrário de afastar
estreitaram com cada conversa vadia
confessas em mesa de bar
ou crimes que nunca serão levados a cabo
de norte a sul as palavras andam
com destino certo:
no meu coração há um abrigo
para um querer assim, mendigo
de alma sedento e colo para descansar
com carinho imenso para Mirella
borrado
este romance me rendeu
alguns poemas e outras dores de cabeça
durante a madrugada
um pouco de alegria
(mas só o necessário pra saber como é)
este romance me rendeu
mais perguntas que respostas
música e vontade
este romance me mostrou
um pouco do amor dizendo: tarde
este romance de mentira
escapou entre meus dedos
ainda tentei prendê-lo segurando
com os olhos fechados
mas a chuva borrou algumas palavras
o ‘eu gosto de você’
virou ‘eu não gosto tanto assim’
a confissão virou embaraço e ausência
o que era virtual virou consciência
meus olhos turvados reviraram a memória
bordada em pedaços de tecido recortado
o álcool acusou meus olhos
embaçados na noite fria
terem lido pedaço teu
que não existia
hoje provei do seu corpo
mais uma vez
sem pressa lasciva
entendi todos os milímetros
de que é feito
na palma da mão
senti novamente
entre os dedos
teus olhos meus desejos
passeei a língua
sobre teus apelos
sorvi o doce e o amargo
te quis de novo
teu nada completa meu vazio
nesta noite de frio
você me serve
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